quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Artigo: O trono da Cruz que tudo comprou


“Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da herança dos santos na luz; que nos arrancou do poder das trevas, e nos transferiu para o Reino do Filho do seu amor, em Quem temos, pelo seu sangue, a redenção e o perdão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, porque é Nele que tudo foi criado nos Céus e na Terra, – o mundo visível e o invisível, os Tronos e as Dominações, os Principados e as Potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é anterior a tudo, e tudo Nele subsiste. É Ele ainda que é a cabeça do corpo da Igreja; o princípio, e o primogênito de entre os mortos, a fim de em tudo ter a primazia, porque aprouve a Deus fazer Nele residir toda a plenitude; e por Ele, que restabeleceu a paz no sangue de sua Cruz, reconciliar tudo o que existe, seja na Terra ou nos Céus, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.”
— São Paulo aos Colossenses I, 12-20
Nosso Senhor Jesus Cristo sempre fora aclamado como Rei pela Cristandade, porque assim fora constituído pelo Pai. É o Rei sob cuja a majestade devem ser submetidos todos indivíduos, famílias, cidades, povos e nações. É o Rei único e supremo no céu e sobre a terra, como solenemente proclamou e demonstrou o Papa Pio XI durante o Advento de 1925. A instituição da Festa de Cristo Rei pelo mesmo Papa é a proclamação solene da realeza universal de Cristo, de seu Reinado Social contra a dita outra via da “sã” laicidade e do laicismo, erros largamente difundidos em nosso tempo, mesmo por aqueles que se dizem católicos.
“Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.”
 — PIO XI, Quas Primas, 1925
A tal “sã” laicidade é o primeiro passo à cidade dos homens: a negação da realeza de Cristo sobre os homens: é a vida como se Deus não existisse, um indiferentismo maldito ao Rei que conduz à apostasia massiva, a sociedade à desgraça, porque, indiferentes, esquecem que não há outra via para a Jerusalém Celeste, somente Cristo Rei; enquanto o laicismo é o segundo passo: a pura aversão dos homens apóstatas de uma sociedade já desgraçada ao Rei, é a concretização da cidade dos homens. Ambos os passos são parte do projeto de Satanás, que, com seu infame non serviam, foi o primeiro liberal ao lançar-se contra o Rei dos reis. Passos para o inferno.
“Mas há um grande número de homens que, a exemplo de Lúcifer, — de quem são estas palavras criminosas: Não obedecerei, — entendem pelo nome de liberdade o que não é senão pura e absurda licença. Tais são aqueles que pertencem à escola tão espalhada e tão poderosa desses homens que foram tirar o seu nome à palavra liberdade, querendo ser chamados Liberais.”
— LEÃO XIII, Libertas Praestantissimum, 1888
O reinado de Nosso Senhor é primeiramente espiritual, e com Ele a reinar sobre a alma de cada homem, deve reinar também naquilo que é temporal e social, para que tudo favoreça e seja retamente ordenado à salvação das almas. É nisto que consiste a verdadeira liberdade do homem: viver segundo as leis, natural e divina, e segundo a reta razão. Viver segundo a verdade, que é libertadora da obscura escravidão do pecado, do erro e do poder das trevas.
“Numa sociedade de homens, portanto, a liberdade digna deste nome não consiste em fazer tudo o que nos apraz: isso seria uma confusão extrema no Estado, uma perturbação que conduziria à opressão. A liberdade consiste em que, com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna. E para aqueles que governam, a liberdade não é o poder de mandarem ao acaso e segundo seu bel-prazer: isso seria uma desordem não menos grave e extremamente perigosa para o Estado; mas a força das leis humanas consiste em que elas sejam olhadas como uma derivação da lei eterna e que não há nenhuma das suas prescrições que não seja contida nela como no princípio de todo direito.”
— LEÃO XIII, Libertas Praestantissimum, 1888
Seguindo estas palavras tão verdadeiras do Papa Leão XIII, o grande estadista católico português António de Oliveira Salazar resumiu de maneira clara, simples e direta como deve se dar a relação entre Estado e Igreja: “A Igreja quer salvar todas as almas e pretende que o Estado não a atrapalhe nessa missão.”. Como já escrevemos anteriormente, no instaurar de todas as coisas em Cristo, o Estado e Igreja devem estar unidos - Estado Católico - sem se confundirem e serem distintos sem separação, com o Estado ordenado e submisso à Igreja e às suas leis, prostrado diante de Cristo Rei. A negação da realeza social de Cristo é a edificação da cidade dos homens, e não se pode querer estar na cidade dos homens e na cidade de Deus ao mesmo tempo. Não podemos servir a dois senhores.
“Quanto à Igreja, que o próprio Deus estabeleceu, excluí-la da vida pública, das leis, da educação da juventude, da sociedade doméstica, é um grande e pernicioso erro. Uma sociedade sem religião não pode ser bem regulada; e, mais talvez do que fora mister, já se vê o que vale em si e em suas conseqüências essa pretensa moral civil.”
— LEÃO XIII, Immortale Dei, 1885
Os judeus reconheceram a Realeza de Nosso Senhor para condená-Lo (cf. Jo XIX, 12) e os pagãos para Dele zombar (cf. Jo XIX, 3). O omisso Pôncio Pilatos ordenou que se escrevesse na Santa Cruz “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”, o que é correto, mas algo incompleto: Cristo é Rei não somente dos judeus, mas de todos os povos, uma vez que toda a terra está sob sua autoridade; uma vez que adquiriu para si todo o gênero humano através do derramamento de seu Preciosíssimo Sangue na Santa Cruz.
“Este testemunho universal e solene de honra e de piedade é plenamente devido a Jesus Cristo, precisamente porque Rei e Senhor de todas as coisas. Com efeito, o seu império não se estende somente às nações católicas e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infringiram os vínculos da caridade), mas abraça também todos aqueles que não têm a fé cristã, porque toda a humanidade está realmente sob o poder de Jesus Cristo. Com efeito, o Filho unigênito de Deus Pai tem em comum com Ele a mesma natureza, o “resplendor de Sua glória e expressão do Seu ser” (Hb I, 3), tem necessariamente tudo em comum com o Pai e, portanto, o pleno poder sobre todas as coisas. Esse é o motivo pelo qual o Filho de Deus, pela boca do Profeta, pôde afirmar: “Fui constituído Rei sobre Sião, seu monte santo. O Senhor me disse: Tu és meu Filho; Eu hoje Te gerei. Pede-me e dar-te-ei as nações em herança e para teu domínio os confins da terra” (Sl II, 6-8). Com essas palavras ele declara ter recebido de Deus o poder, não somente sobre toda a Igreja, prefigurada em Sião, mas também sobre todo o resto da terra, até onde se estendem os seus confins. O fundamento desse poder universal é claramente expresso naquelas palavras: “Tu és meu Filho”. Pelo fato de ser o Filho do Rei de todas as coisas, é também herdeiro de Seu poder universal. Por isso o salmista continua com as palavras: “Dar-te-ei as nações em herança”. Semelhantes a esta são as palavras do Apóstolo Paulo: “Constituiu-O herdeiro de todas as coisas” (Hb I, 2).
Deve-se ter presente, sobretudo o que Jesus Cristo, não por meio dos seus Apóstolos e Profetas, mas com as suas próprias palavras afirmou do seu poder. Ao governador romano que Lhe perguntava: “És, portanto, rei?”, Ele respondeu sem hesitação "Dizes bem: eu sou Rei!" (Jo XVIII, 37). A vastidão do seu poder e a amplidão sem limite de seu Reino são claramente confirmadas pelas palavras dirigidas aos Apóstolos: “Foi me dado todo poder nos céus e na terra” (Mt XXVIII, 18). Se a Cristo foi concedido todo  o poder, disso deriva necessariamente que o seu domínio deve ser soberano, absoluto, não submetido a ninguém, de modo que não pode existir outro nem igual nem semelhante. E como esse poder Lhe foi dado, quer no céu quer na terra, devem estar submetidos a Ele o céu e a terra. Com efeito, Ele exerceu esse seu direito próprio e individual quando mandou aos Apóstolos pregar sua doutrina, reunir, por meio do batismo, todos os homens no único corpo da Igreja, e impor leis, as quais ninguém se pode subtrair sem pôr em perigo a própria salvação eterna.
E não é tudo. Cristo não tem poder de mandar somente por direito de nascimento, sendo o Filho unigênito de Deus, mas também por direito adquirido. Com efeito, Ele nos libertou “do poder das trevas” (Cl I, 13) e “deu a Si mesmo como resgate para todos” (I Tm II, 6). Por isso, para Ele não somente os católicos e quantos receberam o batismo, mas também cada um e todos os homens tornaram-se “um povo que Ele adquiriu” (I Pd II, 9). A esse propósito Santo Agostinho observa justamente: “Quereis saber o que Ele adquiriu: Prestai atenção naquilo que deu e entendereis o que comprou. O sangue de Cristo: eis o preço. E o que pode valer tanto? O quê a não ser o mundo inteiro? Para tudo deu tudo”.”
— LEÃO XIII, Annum Sacrum, 1899
Durante os Santos Mistérios, os homens ajoelham-se todos, indistintamente, perante o Cordeiro que foi imolado no altar de Deus: ecce Agnus Dei! – eis o Cordeiro de Deus!; perante o Deus que se fez Homem a ser crucificado. Ecce Homo! – eis o Homem!

A Festa de Cristo Rei proclama com todas as palavras a antecipação no tempo da realeza eterna exercida por Nosso Senhor na glória celeste. O Rei cujo o Reino não terá fim – cujus Regni non erit finis – e que dominará sobre toda a terra, onde todos devem adorá-Lo e servi-Lo (cf. Sl LXXI, 8). E somos sempre convidados pelas palavras de Nosso Senhor ao labor pela expansão de seu Reino: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.”, convite sempre reforçado pela Santa Igreja.
“Amados irmãos e filhos nossos: o olhar que lançamos convosco sobre os diversos problemas da vida social contemporânea, desde as primeiras luzes do ensinamento do papa Leão XIII, levou-nos a formular um conjunto de observações que formam um programa. Convidamo-vos a que as pondereis, as mediteis bem e vos animeis a cooperar, todos e cada um de vós, na realização do reino de Cristo sobre a terra: “Reino de verdade e de vida; reino de santidade e de graça; reino de justiça, de amor e de paz”; reino que promete o gozo dos bens celestiais, para que fomos criados e que ansiosamente desejamos.
Trata-se da doutrina da Igreja Católica e Apostólica, mãe e mestra de todas as gentes, cuja luz ilumina e abrasa; cuja voz, ao ensinar cheia de sabedoria celestial, pertence a todos os tempos; cuja virtude oferece sempre remédios eficazes, suscetíveis de trazerem solução para as crescentes necessidades dos homens, para as angústias e aflições desta vida.”
— JOÃO XXIII, Mater et Magistra, 1961
Como no Tempo da Paixão anuncia o Hino Vexilla RegisAvançam os estandartes do Rei, fulge o mistério da Cruz, o criador da carne, pela carne, é suspenso no madeiro. [...] Cumpriu-se o canto de Davi, a profecia fiel que anunciou às nações: Deus fez da cruz o seu trono.”. Deus reinou do madeiro da Santa Cruz ao morrer, por amor, para nos salvar, para adquirir nossa liberdade e nosso domínio soberano. Gloriemo-nos, como São Paulo, na Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl VI, 14).

Que “as nações divididas pela ferida do pecado se agreguem sob o seu império santíssimo”, para a realização “do reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, amor e paz” (Colecta e Prefácio de Cristo Rei, Rito Romano Tradicional). Abracemos sem hesitação o Rei da Cruz como fez a Beatíssima Virgem Dolorosa, e entoemos junto da Igreja o Hino de Vésperas da Festa de Cristo Rei:
Nós vos proclamamos, Senhor, o príncipe que domina os séculos, o Rei das nações e dos povos, o Mestre e Guia das almas e dos corações. 
A turba ímpia clama: não queremos que Cristo reine. Nós te proclamamos o Senhor supremo de todas as coisas. 
Ó Cristo, príncipe da Paz, sujeita os corações rebeldes e reúne-os por teu amor ao santo rebanho que governas. 
Rendam-te, pois, os governantes dos povos a vassalagem a que tens direito; venerem-te os juízes e os magistrados, e a arte e as leis sejam a expressão de tua realeza. 
Gloriem-se as coroas brilhantes dos monarcas de se curvarem diante de ti e reduze à obediência do teu cetro brando a nossa pátria e os nossos lares.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Artigo: O homem e o mundo, parte II

Benedictus Dominus, Deus meus, qui docet manus meas ad proelium, digitus meos ad bellum; misericordia mea et refugium meum, susceptor meus et liberator meus; protector meus, et in eo speravi, qui subdis populum meum sub me.
— Salmo CXLIII, 1-2
Conforme o adágio de Santo Agostinho tornado em lema jurídico por São Tomás, lex iniusta non est lex - a lei injusta não é lei. Os católicos temos não só o direito, mas verdadeiro dever de desobedecer as leis injustas e qualquer outra coisa que afronte à Lei de Deus, sem temer as consequências mundanas. Se Deus por nós na Cruz morreu, porque não podemos segui-Lo no exemplo por Ele? O mundo nos odeia. A Sabedoria Encarnada nos afirmou com clareza cristalina, para não deixar nenhuma dúvida: “Sereis odiados de todos por causa de meu nome” (cf. Mt X, 22).

O mundo rejeita o Cristo e seus ensinamentos. E devemos reagir não somente às leis injustas, mas também aos propagandismos das iniquidades e àqueles que buscam a liberdade para o erro, para o que é falso, iníquo e imoral.
“Amemos, pois, e muito a nossa pátria terrena que nos deu a vida mortal: mas amemos ainda mais a Igreja à qual somos devedores da vida imortal da alma, porque é justo preferir os bens da alma aos do corpo, e os deveres para com Deus têm um caráter mais sagrado que os deveres para com os homens. [n. 8]
Casos há efetivamente em que o Estado exige uma coisa do súdito e a Igreja requer outra do cristão, e a causa dessa colisão é porque os chefes políticos ou não reconhecem o poder sagrado da Igreja ou a pretendem avassalar. Daqui as perseguições e as admiráveis cenas de fortaleza cristão. Dois poderes insistem dando ordens contrárias. Obedecer a ambos ao mesmo tempo é impossível: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt VI, 24), agradar a um é descontentar o outro, mas qual deva ser preferido é coisa em que não cabe a menor dúvida. [n. 10]
Seria crime negar obediência a Deus para dá-la aos homens; seria delito infringir as leis de Jesus Cristo para obedecer aos magistrados, ou violar os direitos da Igreja sob pretexto de guardar as leis de ordem civil. “Importa obedecer mais a Deus do que aos homens” (At 5,29). Essa resposta que outrora costumavam dar Pedro e os demais apóstolos aos magistrados, quando lhes ordenavam coisas ilícitas, devemos repeti-la todos os dias muito resolutamente em circunstâncias iguais. Não há melhor cidadão, quer na paz, quer na guerra, do que o cristão que o é deveras; mas por isso mesmo que o é, deve antes estar resolvido a sofrer tudo e a própria morte, do que desertar a causa de Deus e da Igreja. [n. 11]
A lei não é outra coisa que um ditame da reta razão promulgado pela autoridade legítima para o bem comum. [...] Reta razão não se pode chamar aquela que discordar da verdade e razão divina; e, quanto a bem verdadeiro, certamente não o é o que estiver em contradição com o bem supremo e imutável e por conseguinte torcer e desviar as vontades humanas do amor de Deus. [n. 12]
Em presença dessas iniquidades, seja o primeiro dever de cada um entrar em si e aplicar-se com todo o desvelo a conservar a fé profundamente arraigada em sua alma, livrando-se de todos os perigos e nomeadamente mantendo-se armado contra falácias e sofismas. A fim de melhor manter a integridade dessa virtude, [...] se aplique bem ao estudo da doutrina cristã e faça que sua alma se embeba, o mais possível, das verdades da fé acessíveis à razão. [n. 19]
Nesse enorme e geral delírio de opiniões que vai grassando, o cuidado de proteger a verdade e de extirpar o erro dos entendimentos é missão da Igreja e missão de todo o tempo e de todo o empenho, como que à sua tutela foram confiadas a honra de Deus e a salvação dos homens. Mas quando a necessidade é tanta, já não são somente os prelados que hão de velar pela integridade da fé, uma vez que: “cada um tem obrigação de propalar a todos a sua fé, seja para instruir e animar os outros fiéis, seja para reprimir a audácia dos que não o são” (São Tomás de Aquino, Summa Theol. II-II, q.3, a.2, ad 2). Recuar diante do inimigo, ou calar-se, quando de toda a parte se ergue tanto alarido contra a verdade, é de homem covarde ou de quem vacila no fundamento de sua crença. Qualquer dessas coisas é vergonhosa em si; é injuriosa a Deus; é incompatível com a salvação tanto dos indivíduos, como da sociedade e só é vantajosa aos inimigos da fé, porque nada tanto afoita a audácia dos maus, como a pusilanimidade dos bons. [n. 21]
Acresce que os cristãos nasceram para o combate, e quanto mais bravo ele for, mais certa será com o auxílio de Deus a vitória: “Tende confiança, eu venci o mundo” (Jo 16,33). [n. 22]
A primeira aplicação desse dever é professar clara e constantemente a doutrina católica, e propagá-la o mais que se puder. [n. 23]
Desse modo, nos deveres que nos ligam com Deus e com a Igreja, está, em primeiro lugar, o zelo que cada qual deve trabalhar segundo as suas forças em propagar a doutrina cristã e refutar os erros. [n. 25]”
— LEÃO XIII, Sapientiae Christianae, 1890
O grande Papa Leão XIII, que tanto iluminou a Igreja com suas brilhantes encíclicas em seu longo pontificado, assertivamente declarou com venerável firmeza tudo acima citado (o destacado é nosso). Ressaltamos uma vez mais estas belas palavras: “os cristãos nasceram para o combate”. Nas palavras de Gustavo Corção, pelo Sinal da Santa Cruz nós aprendemos a pedir a Deus que nos livre de nossos inimigos e nos armamos para o bom combate (cf. Permanência, N° 30, ano IV, 03/1971). E a vocação do católico é o combate! É para isto que nascemos, portanto devemos nos revestir da armadura de Deus para servi-lO dedicadamente como verdadeiros servos do Senhor, e não do mundo, da carne ou do Diabo (cf. Ef VI, 10-17). Nascidos para o combate, busquemos o combate, não o conforto mundano. O repouso e conforto do cristão está em Deus, e somente n'Ele há de descansar verdadeiramente. O resto é vão, há de ser consumido pela traça e corroído pelos vermes.

Tal como São Jerônimo, façamos dos inimigos de Deus nossos inimigos pessoais e lutemos! Lutemos contra as iniquidades da maldita Civilização Liberal, que espalha em assalto as suas desgraças liberais, socialistas, marcusianas, revolucionárias; que busca transformar (ou já o fez) a morte de bebês em direito e os verdadeiros direitos, natural e divino, em crimes.

Neste fruto que já nasceu podre da desgraçada e liberal Revolução Francesa, o homem é reduzido de sua dignidade, de sua condição humana: buscam seduzi-lo para torná-lo mero animal que sucumbe em todo instante às paixões. O homem é desumanizado como fruto da peste laica, e hoje colhemos os resultados do que em 1906 já nos dizia São Pio X:
"Finalmente, essa tese [do Estado Laico] inflige graves danos à própria sociedade civil, pois esta não pode prosperar nem durar muito tempo quando não se dá nela o seu lugar à religião, regra suprema e soberana senhora quando se trata dos direitos do homem e dos seus deveres”; repetia de outra maneira as palavras de Leão XIII, que chamava tal separação de “grande e pernicioso erro” (cf. LEÃO XIII, Immortale Dei, 1885)."
— PIO X, Vehementer Nos, 1906
Lutemos pelo Estado Católico e a restauração da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo em nossos corações, famílias, cidades e nações. Somente em Deus e em seu Reino teremos verdadeira liberdade e paz, conforme o lema de Pio XI: Pax Christi in Regno Christi - A paz de Cristo no Reino de Cristo. Fora dele, somos todos escravos.
“A Igreja, fundada pelo Salvador, é a única para todos os povos e todas as nações. Sob sua cúpula, que levanta seus arcos como o firmamento sobre o universo inteiro, encontram lugar e asilo todos os povos e todas as línguas, e podem desenvolver-se todas as propriedades, qualidades, missões e funções que foram assinadas por Deus Criador e Salvador aos indivíduos e à sociedade humana.”
— PIO XI, Mit Brennender Sorge, 1937
A sociedade moderna, aprovando e incentivando erros, iniquidades, depravações, desordens, caos, encaminha-se para a destruição que lhe é devida por buscar sediar o Anticristo, mas, infelizmente, arrasta consigo muitas almas para o inferno. Pois lutemos contra ela o bom combate, sempre buscando as virtudes e a perfeição cristã. O homem é plenamente homem à medida que é cristão e está em habitual e crescente comunhão com a Graça, do contrário, perde sua humanidade enquanto afasta-se de Cristo. E quanto mais está unido a Cristo e sua Graça, mais há de afrontar o mundo, especialmente com seu exemplo diariamente moldado e esculpido pela ação da Graça Santificante.
“Eles se revoltam insidiosamente contra vós, perfidamente se insurgem vossos inimigos. Pois não hei de odiar, Senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los? Eu os odeio com ódio perfeito, eu os tenho em conta de meus próprios inimigos.”
 — Salmo CXXXVIII, 20-22
Como escreveu o salmista, odiemos os inimigos da Igreja e de Deus com ódio perfeito de uma caridade ardente fundada sobre o mais sólido amor à Verdade, para que como o Santo Profeta Elias, ao sermos questionados pelo Senhor com “O que fazes aqui?”, a resposta possa surgir na língua sem hesitação alguma por ter sido impregnada no mais íntimo do âmago da alma de cada católico: “Zelo zelatus sum pro Dominum Deo Exercituum. - Consumo-me de zelo pelo Senhor, Deus dos Exércitos.” (cf. I Reis XIX, 9-10). Conforme escreveu São Tomás, “odiar o mal de alguém e querer o seu bem, é a mesma coisa. O ódio perfeito é, portanto, um aspecto da caridade.” (cf. Summa Theol. II-II, q. 25, a. 6, ad 1). Lutemos e rezemos, pedindo na intenção do salmista que o Senhor se erga para castigar os ímpios como eles merecem (cf. Sl XCIII) depois de tanto bradar aos céus pelo castigo.

E busquemos, como buscaram os mártires e confessores, como demonstraram os santos com suas palavras e vidas, cumprir o dever exigido do cristão: ser fiel à verdade até o último suspiro, combatendo o bom combate para a maior glória de Deus, sempre em busca da Cruz Coroada.

Peçamos a Nosso Senhor que nos livre dos receios da humilhação, do desprezo, da calúnia, da repulsa, do esquecimento, da ridicularização, do escárnio e da difamação, como recitava o Cardeal Merry del Val em sua Ladainha da Humildade, para que, com ardente zelo, não tenhamos medo de enfrentar tudo o que for necessário para maior glória de Deus, pois “é ínsita no Sagrado Coração a qualidade de ser símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor” (cf. LEÃO XIII, Annum Sacrum, 1899).

Que o católico seja “a alma fiel que, venerando o Coração de Jesus, adora juntamente com a Igreja o símbolo e como que a marca da caridade divina, caridade que com o coração do Verbo Encarnado chegou até a amar o gênero humano contaminado de tantos crimes.” (cf. PIO XII, Haurietis Aquas, 1956). Consumamo-nos de zelo pelo Senhor carregando o estandarte da Santa Cruz nas fileiras de seu Exército! Cor Iesu Sacratissimum, miserere nobis! - Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós!

domingo, 30 de junho de 2019

Artigo: O homem e o mundo, parte I


Si mundus vos odit, scitote quia me priorem vobis odio habuit.
— Evangelho de São João XV, 18

“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim.”, é esta frase do Evangelho citado que, em latim, como logo acima, serve de lema para este blogue. Está no subtítulo, pouco abaixo de Adversus Modernitatem. Foi a escolha para permanecer destacada em nosso blogue, pois não há nada que melhor represente o apartar entre o cristão e o mundo.

Nosso Senhor continua: “Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: 'O servo não é maior que seu senhor'. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós.” (cf. Jo XV, 18-21). O cristão que se preze, melhor ainda, que preze e zele pelo Credo da Santa Religião que professa - a Religião Católica - não pode esperar nada além deste mundo que não seja o desprezo.

O Catecismo Romano, promulgado por ordem do Concílio de Trento, define com bastante simplicidade a relação entre a Igreja e o mundo: “A Igreja Militante é a Sociedade de todos os fiéis que ainda vivem na terra. Chama-se militante porque está obrigada a manter uma guerra incessante contra os mais cruéis inimigos: o mundo, a carne e o Diabo”. Estes três inimigos da Igreja são também inimigos das nossas almas, e devemos combatê-los no bom combate. Conforme dizia São Jerônimo, devemos empregar todo o nosso zelo em fazer dos inimigos da Igreja nossos inimigos pessoais.

Entretanto, para não haver confusões, são necessárias distinções de alguns dos significados. Mundo deve ser entendido não como a terra em que habitamos e vivemos, tampouco nos referimos ao mundo como a criação de Deus e as demais criaturas, que devemos amar, cuidar, zelar e desenvolver, para devolvê-lO futuramente; mas como a organização polarizada de homens que odeiam os cristãos - e o Cristo - e buscam descristianizá-los e desumanizá-los, pois quanto mais um homem é cristão, mais plenamente ele é homem; e fazer com os cristãos reneguem o Santíssimo Nome de Nosso Senhor para que tenham aqui todos os confortos e regalias com que tentam envenená-los. Carne aqui, como nós já explicamos anteriormente em duas ocasiões (cf. O sofrimento e a Cruz e Caridade, pureza e morte), não é no sentido de corpo ou de sexo, mas da atitude do amor próprio, das tendências concupiscentes e paixões desordenadas derivadas da ferida do pecado original, e que incentivam o homem a receber as seduções e prazeres do mundo numa realidade puramente materialista.

Desde o autoproclamado Renascimento, os homens passaram a buscar com mais ímpeto a destruição da Igreja. No quase milenar período entre 476 e 1453, ao qual os renascentistas pejorativamente denominaram como “Idade Média”, a cosmovisão dos homens era cristã. Da aurora ao pôr do sol tinham o divino em mente. Foram os homens das impressivas arquiteturas românica e gótica, do canto gregoriano e da genial Escolástica classificados como “nada” pelos falsários do Renascimento.

E então vieram os deformadores para dividir a Cristandade, e depois deles os iluministas, que, obscurantistas, resolveram cunhar o termo “Idade das Trevas” para o desígnio da Cristandade pós-romana. Foram estes que com suas falsas ideias dirigiram o mundo para o precipício com a Revolução Francesa, fundaram a Civilização Liberal e suas várias correntes: liberais, socialistas, comunistas, fabianos, pós-modernos e todas as demais falsas.

De tal maneira, estes homens desumanizados e mundanos perseguem cada vez mais descaradamente a Santa Madre Igreja que Nosso Senhor fundou. O mundo odeia o Corpo de Cristo e, consequentemente, também a Cabeça. E odiando a Nosso Senhor Jesus Cristo, odeiam o Pai (cf. Jo XV, 23) e o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho.

O homem moderno cria leis iníquas, aprova e incentiva as mais diversas malignidades, tudo em nome de uma “sociedade perfeita onde todos possam ser felizes”, falseando e ocultando o verdadeiro sentido da felicidade. Adorador do dinheiro, da luxúria, da morte, da ideologia e da perversidade; o homem moderno tenta nulificar Deus e ocultá-Lo, mas a verdade é que busca sê-Lo. Na tentativa de criar uma utopia, fundam a mais perversa distopia.

E os católicos devemos nos levantar contra esta abominação fundada pelo homem moderno, contra esta Civilização Liberal, e devemos fazê-lo por princípio, dever e regra irrenunciável, não só do direito canônico, mas de todos os católicos, impresso na alma de cada batizado: salus animarum suprema lex - a salvação das almas é a lei suprema. Levantemos e, tendo consciência deste dever, lutemos pela restauração de todas as coisas em Cristo, regenerados n'Ele e para Ele, para devolvê-Lo o trono e coroa que Lhe é de direito e que esta Civilização Liberal iníqua busca usurpar (cf. O laicismo e o Reinado).

Contraditória Civilização Liberal, que mais se assemelha à selvageria e ao barbarismo com sua “liberdade” que escraviza, que busca impedir o homem de atingir a verdadeira liberdade, possível somente em Cristo: a liberdade das trevas do pecado.

A Civilização Liberal oferece o paraíso que não pode dar e tudo o que consegue entregar é um prólogo do inferno, para o qual deseja arrastar consigo o máximo de almas que conseguir. Enfrentemo-la corajosamente, com o auxílio da Santíssima Virgem, carregando o estandarte da Santa Cruz de Nosso Senhor.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Artigo: Caridade, pureza e morte

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Inocência (1893), William-Adolphe Bouguereau

Em sua Primeira Epístola aos Coríntios, São Paulo exorta àquela Igreja Particular sobre o que é a caridade e seu verdadeiro sentido. Diz-nos que tudo pode ser feito, mas se não for feito com caridade, nada vale. Todos os dons: profecia, ciência, todos estes passarão. Mas a caridade, a maior das virtudes (cf. I Cor, XIII), não acabará.

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará.”
— São Paulo, I Coríntios XIII, 1-8

Em sua encíclica Caritate Christi Compulsi, o Papa Pio XI nos diz que o amor demanda orações, penitências e sacrifícios ao exemplo do Amor. Exorta-nos à mortificação, para que através deste santo modo nos purifiquemos dos nossos pecados, tendências e paixões desordenadas. Para que sejamos puros, pois “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!”. Somente os puros poderão ver e contemplar o esplendor da Sagrada Face de Deus. Ser puro é pedir com o salmista: “Fazei brilhar sobre nós o esplendor de Vossa Face.” (cf. Sl IV, 7). Mortificar-se é fazer-se unido à Paixão de Nosso Senhor e Redentor, e por isto mesmo, é partir como Santa Verônica para contemplar a Sua Face.

O Papa Bento XVI nos exorta em sua primeira encíclica Deus Caritas Est, nomeada atrás das palavras de São João, que a caridade nos move pelo amor a Deus, mesmo para aqueles com quem não nos agradamos ou desconhecemos. A caridade nos impele ao que é reto, bom, justo e verdadeiro e, desta forma, nos incita em disciplinar o desordenado, retificar o que é torto e corrigir o que é falso; incita o diminuir para que Ele cresça.

É necessário que o “amor próprio” morra para que surja a caridade; que a mesquinhez do orgulho, desapareça. É preciso esvaziar-se do “eu” para que não o homem viva, mas Cristo, Senhor Nosso, viva nele. É fundamental que a carne diminua para que venha a grandeza de alma. Porque a Santa Cruz é sinal de contradição!, e através d'Ela ganhamos a Vida.

Apesar de a Igreja estar a celebrar hoje a Solenidade da Ascensão do Senhor, as palavras da Quarta-feira de Cinzas devem sempre reverberar no mais íntimo da alma católica: “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.” - lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó retornarás. É com esta frase que a Igreja marca nossa fronte com as cinzas, para colocar o homem diante de sua própria fragilidade e mortalidade, e lembrar que a morte vem para todos. E então surge outro adágio, este romano: “Memento mori et carpe diem” - lembra-te de que és mortal e aproveita o dia. A única certeza desta vida é a morte, mas não é possível ao homem saber quando ela virá, por isso busquemos aproveitar o hoje, o agora, enquanto ainda respiramos e andamos nesta terra, para o arrependimento dos nossos pecados e a conversão, abandonando o “jeitinho brasileiro” de deixar as coisas para o último segundo, pois não há certeza do viver no amanhã, e se surpreendidos pela morte já não mais teremos tempo para fazê-lo.

No sermão da Missa deste último domingo (5° depois da Páscoa, calendário tradicional), o sacerdote nos exortou da necessidade de conversão: é preciso, com todas as nossas forças e com toda a nossa razão, que persigamos a reflexão para o arrependimento, a conversão, a santidade. Como soldados que treinam por toda a vida para caso hajam guerras, assim também é necessário que estejamos prontos para o chamamento divino.

Busquemos a prontidão na mortificação, na penitência, na oração, apegados ao Santo Rosário, pedindo as graças de Deus pela intercessão da Virgem Santíssima, para que buscando a pureza da neve (cf. Sl LI, 9) para permanecer em Deus, que é Amor (cf. I Jo IV), possamos contemplar Sua Sagrada Face após o nosso último suspiro. E antes deste chegar, estejamos sempre unidos à Paixão e Cruz de Nosso Senhor em nossas palavras, atos e pensamentos, em busca da perfeição cristã na imitação de Cristo, para que até na Sétima Palavra sigamos Seu exemplo de ardente caridade e compassiva firmeza em busca da salvação das almas.

Sempre abraçados à Santa Cruz, gloriemo-nos n'Ela, pois stat Crux dum volvitur orbis. - a Cruz permanece intacta enquanto o mundo gira.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Artigo: A modernidade, a França e a Páscoa


Lumen Christi gloriose resurgentis dissipet tenebras cordis et mentis.

“Que a luz de Cristo ressuscitado gloriosamente nos dissipe as trevas do coração e da mente.”, são com estas belas palavras que o Círio Pascal é aceso durante Vigília Pascal, na Santa Noite de Páscoa, segundo o Rito Romano Tradicional. Palavras belíssimas e de imensurável profundidade, especialmente no estado em que o mundo se encontra.

Há pouco mais de uma semana, ao fim da tarde do dia 15 deste mês de Abril, a Catedral de Notre-Dame de Paris, construída entre os séculos XII e XIV, pegou fogo. Depois da queima da Igreja de Saint-Sulpice, foi a vez de Notre-Dame: a rígida construção que atravessou os séculos, joia preciosa da devota Cristandade medieval, ali, naquele momento, em chamas, arruinando parte de uma cuidadosa obra que teve início com a plantação de carvalhos num terreno próximo; iniciada por homens que não chegaram nem perto de ver sua conclusão. De um incêndio que abalou a já frágil Cristandade moderna, alguns significados podem ser tirados.

A queima de Notre-Dame é um claro sinal de que a França, parideira do liberalismo, e o mundo moderno não são dignos de sua grandeza. A França, num processo de autodestruição iniciado pelo rei Filipe IV ainda no começo do século XIV, passou pelos iluministas do século XVIII e lançou a desgraçada Revolução Francesa no mundo ao final do mesmo século, assassinando milhares e declarando guerra aos católicos (Vendeia) com suas ideias liberais e maçônicas; perseguiu, caçou e tentou subjugar os direitos da Igreja mais de uma vez, finalmente assinalou a perda de sua alma católica com a queima de Notre-Dame.

A França deixou de ser Gália com o batismo de Clóvis, Rei dos Francos, em 508, e passou a lutar para continuar França com a Revolução Francesa, em 1789. Perdeu a luta. Perdeu a guerra. A França foi morta pelos próprios franceses, que renegam o que é ser verdadeiramente francês.

Construída pelos homens do Medievo, que devotos à Mãe de Deus dedicaram sua vida àquela obra, a Notre-Dame de Paris mostrou-se imerecida ao homem moderno, completo antônimo do homem medieval: ateu, materialista, fraco, desnorteado, covarde e niilista. Homem moderno este que chorou pela perda do “museu” que queimava, e não pelo pulsante coração espiritual da outrora França Católica.

E na queima de Notre-Dame, caiu o teto sobre o altar-mesa. O altar versus populumversus hominem, tornou-se parte dos escombros. Claro sinal da falha da liturgia moderna: antropológica e antropocêntrica. Da liturgia que tenta agradar o homem (e mesmo nisso falha) e transformar o Sacro Sacrifício do Cordeiro em mera ceia de convenção social. Da liturgia que põe o homem como prioridade, e não Deus. Claro sinal do descontentamento divino com o que tornou-se, na maioria das vezes, uma espécie de antropoteísmo. Ao contrário deste, resistiu o altar versus Deum, o altar do serviço divino que faz o Céu descer, e não a Terra subir.

Simboliza também a grande apostasia dos nossos tempos, onde aqueles que deveriam ser leões na defesa da Fé são na verdade hienas a atacá-la. Onde os ataques à Igreja surgem não somente por fora, mas também por dentro, realizados por promotores do caos, com alguns autênticos representantes do non serviam luciferino.

“Esta revolta é de raiz espiritual. É a revolta de Satanás contra o dom da graça. Fundamentalmente, eu acredito que o homem ocidental se recusa a ser salvo pela misericórdia de Deus. Ele recusa a salvação, procurando construí-la por si mesmo. 
A crise da Igreja é acima de tudo uma crise da fé. Alguns querem que a Igreja seja uma sociedade humana e horizontal; eles querem que ela fale a linguagem da mídia. Eles querem torná-la popular. 
Quando a Igreja é sobrecarregada com estruturas humanas, é obstruída a luz de Deus que brilha n'Ela e através d'Ela.”
— Cardeal Robert Sarah

Mas apesar de todos os efeitos e significados decorrentes do incêndio, Notre-Dame queimou tal como o Círio Pascal: queimou para desobstruir a luz de Cristo; queimou para reacender a chama do católico e lembrá-lo de seus irmãos medievais que construíram tamanho monumento em homenagem à Mãe de Deus.

Notre-Dame queimou, mas manteve intacta sua rosácea e, mais importante, o altar tradicional da Mãe Piedosa aos prantos com seu Santo Filho morto. A Mãe que chorou pelo Filho na Cruz e chorou pela Igreja em La Salette. E a Santa Cruz manteve-se de pé, inabalavelmente firme entre as ruínas da modernidade, numa tragédia que precisou acontecer para desobstruir a luz de Deus e fazer brilhar a Cruz.

A Igreja passa a sua noite escura, assim como Nosso Senhor passou no Getsêmani. Está em sua Via Crucis, como Ele também esteve. Que Notre-Dame seja como o Templo destruído e reedificado em três dias. Que a Cristandade seja reedificada plenamente na “Verdade Revelada que a Igreja Católica recebeu e deve ser transmitida, propagada e pregada” (cf. Card. Sarah ao Catholic Herald).

Que possamos clamar a Deus e lutar por governantes virtuosos e católicos, que sejam tementes e fiéis a Deus. Governantes que afastem de nós o orgulho, o egoísmo e o respeito humano; que afastem de nós as pestes do liberalismo, do relativismo, da maçonaria, do marxismo e do laicismo, e nos aproximem da Cruz Coroada.

Ó Deus da terra e do altar,
Inclina-te e ouve o nosso clamor.
Os nossos governantes vacilam,
O nosso povo à deriva, morre. 
As paredes de dinheiro sepultam-nos
As espadas do escárnio dividem,
Não afastais de nós o Vosso relâmpago,
Mas levai embora o nosso orgulho.
— G. K. Chesterton, hino O God of Earth and Altar

Entronizemos Nosso Senhor nas nossas vidas, famílias, sociedades e Estados sem medo e dignamente como o Rei que é, para “que a luz de Cristo ressuscitado gloriosamente nos dissipe as trevas do coração e da mente” e, como São Paulo, gloriemo-nos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que, como mostrado em Notre-Dame, é luz nas trevas; é a candeia que não é posta debaixo do alqueire. Somente ao estabelecer o Reinado de Cristo e restaurar todas as coisas n'Ele teremos a verdadeira paz.

“É, portanto, um fato que não pode ser questionado que a verdadeira paz de Cristo somente pode existir no Reino de Cristo  a paz de Cristo no Reino de Cristo.”
— PIO XI, Ubi Arcano Dei Consilio, 1922

Ao dia 23 de Abril de 303, o Tribuno Jorge tornar-se-ia São Jorge ao ser martirizado, e seria exemplo para tantos outros santos durante a história, influenciando, como santo militar, até mesmo o Rei São Luís IX da França. Contrários à modernidade e seus maus exemplos, possamos ter a coragem que ele teve de até mesmo suportar as torturas e a morte com o nome de Cristo na língua, sem nunca renegá-l'O, sem nunca deixar de anunciá-l'O, como ensinou com seu exemplo aos dispostos homens do Medievo e a todos os demais católicos durante a história; e também como São Jorge, tenhamos sempre esperança na Cruz de Cristo nossa Páscoa.

A Cruz permanece intacta enquanto o mundo gira... e queima.

sábado, 6 de abril de 2019

Artigo: Eis aí tua Mãe

Cristo Crucificado entre a Virgem e São João (c. 1500), autor desconhecido

Consoante com a Sagrada Tradição da Igreja e a piedade católica, a sexta-feira é consagrada à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, é o dia penitencial por excelência. O domingo, Dies Domini – dia do Senhor –, é consagrado à Ressurreição de Nosso Senhor. Já os dias de sábado são consagrados à Nossa Senhora, pois o Sábado Santo foi o dia que a Virgem Santíssima viveu sem ter Seu Divino Filho vivo. Foi o santo dia do luto, silêncio e solidão da Senhora das Dores. É a memória de Santa Maria in Sabbato.

São Bernardo de Claraval, para além das belíssimas orações e composições que escreveu, repetia incessantemente: de Maria nunquam satis – sobre Maria jamais será dito bastante – e não poderia estar mais correto. A Senhora das Dores é mestra da vida interior e da dor, pois apesar da espada que Lhe transpassou a alma, tinha fé perfeita e inabalável esperança.

Aprendamos com Seu brilhante e santo exemplo para lidarmos com as cruzes e dores, e com a própria morte, como Ela o fez tão bem, confiando tudo a Deus. Tenhamos firme confiança n'Ela para que nos ensine a confiarmos verdadeiramente n'Ele, e conforme escreveu o Santo Padre Pio XII, com intensa piedade e oração, alcancemos a Mãe Divina para que interceda a Deus pelos remédios oportunos (cf. enc. Doctor Mellifluus, 1953).

Ecce Mater tua – eis aí tua Mãe –, foram as palavras do Crucificado para o Apóstolo São João. Ali, naquele tão sublime momento da história salvífica, pelas palavras de Nosso Senhor ao Evangelista a Mãe de Deus também tornou-se Mãe de todo o gênero humano.

O Doutor Melífluo também disse que Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria. Peçamos sem medo ou hesitação a sua intercessão benigna e poderosa, pois é nossa Mãe.

Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno... É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. 
Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim...
São Bernardo de Claraval, Hom. 11 super Missus est

Aprendamos com a Mãe Santíssima, exemplo máximo de fé, esperança e caridade, para que, como Ela, sejamos sempre confiantes na Ressurreição através da morte de Cruz. Da mesma forma que a Beatíssima Virgem esteve com Nosso Senhor até o fim, também estará conosco conforme Ele nos legou.

Ela, a Santíssima Virgem, é a Auxiliadora, Consoladora, Advogada, Refúgio e Saúde; é a Corredentora e Medianeira de Todas as Graças que sempre está para nós quando A buscamos. É Aquela que esteve com o Filho do Homem do começo ao fim. Saudemo-la firmemente e sem receio com o Anjo São Gabriel: Ave, cheia de graça!

domingo, 24 de março de 2019

Artigo: O laicismo e o Reinado


“Porque é necessário que Ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés.”
— I Coríntios XV, 25
Cristo é Rei. Assim o próprio Senhor afirmou nas Sagradas Escrituras, e assim a Santa Igreja incessantemente tem repetido através dos séculos em suas declarações. Mas com as três grandes revoluções que aconteceram ao longo do Segundo Milênio - a Revolução Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Russa, sequências da Rebelião de Lúcifer -, esta Verdade de Fé vem sendo atentada por todos os lados na modernidade, até mesmo por aqueles que se dizem católicos.

O Concílio de Trento infalivelmente definiu que, para o ranger de dentes dos liberais, “Se alguém disser que Jesus Cristo foi dado por Deus aos homens [só] como Redentor em quem devem crer, e não também como Legislador a quem devem obedecer — seja anátema.” (cf. TRENTO, Sessão VI, Cânon 21, 1546). Muitos que se dizem católicos utilizam de uma interpretação falsa e herética do dito por Nosso Senhor, “O meu Reino não é deste mundo”. Seu Reino não é deste mundo, pois não possui origem ou raiz neste mundo, mas origem divina. Toda a autoridade Lhe foi dada no céu e na terra (cf. Mt XXVIII, 18), e sua autoridade foi temporalmente continuada por São Pedro e seus sucessores.

Como toda a autoridade Lhe foi dada, engana-se quem pensa que o Reinado de Nosso Senhor abrange somente as nações católicas ou os batizados. Seu poder estende-se de forma que abarca todo o gênero humano (cf. LEÃO XIII, Annum Sacrum, 1899), e por isto o dever apostólico de ensino e conversão de todas as nações conforme a ordem dEle. Nas palavras do grande Papa São Pio X, “é por isto que o fito para o qual devem convergir todos os nossos esforços é reconduzir o gênero humano ao império de Cristo.” (cf. enc. E Supremi, 1903). E reconduzir o gênero humano ao império de Cristo nada mais é do que reconduzi-lo à Santa Igreja. Ela é a via que nos dá acesso a Jesus Cristo através dos Santos Sacramentos.

O Reinado Social de Cristo, tão detestado pela modernidade, acontece visivelmente na Igreja, Corpo Místico de Cristo, no triplo múnus de governo, ensino e santificação, na pessoa de seu Vigário, o Santo Papa, cabeça visível da Igreja - o Doce Cristo na Terra, segundo as palavras de Santa Catarina de Siena. Conforme o ditado latino: ubi Petrus, ibi Ecclesia; ubi Ecclesia, ibi Christus - onde está Pedro, está a Igreja; onde está a Igreja, está Cristo.

Assinala o Papa Pio XI que “Jesus Cristo reina sobre a sociedade quando os homens reconhecem e reverenciam a soberania de Cristo; onde a posição que Ele mesmo designou para Sua Igreja é reconhecida na sociedade.” (cf. enc. Ubi Arcano Dei Consilio, 1922). Como podem então católicos tornarem-se defensores do liberal Estado laico? Os católicos devemos prezar pelo Estado Católico e lutar para que seja restaurado.

O mesmo Papa Pio XI promulgou sua monumental carta encíclica Quas Primas no ano de 1925, onde escreveu justamente sobre a primazia e o Reinado de Nosso Senhor sobre todas as coisas, e cito aqui alguns excertos:
“Não podem, pois, os homens de governo recusar à soberania de Cristo, em seu nome pessoal e no de seus povos, públicas homenagens de respeito e submissão.”
Peste de nossos tempos é o chamado “laicismo”, com seus erros e atentados criminosos. [...] Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus.
Com efeito, quanto mais vergonhosamente se passa em silêncio, quer nas conferências internacionais, quer nos Parlamentos, o nome suavíssimo do nosso Redentor, tanto mais alto o devemos aclamar, tanto mais devemos reconhecer os direitos que a Cristo conferem sua dignidade e poder real.”
 — PIO XI, Quas Primas, 1925
É, portanto, contraditório proclamar-se católico e defender o Estado laico. É cair no 55° erro denunciado e condenado pelo Bem-aventurado Papa Pio IX no Syllabus Errorum e na encíclica Quanta Cura, em 1864, de que a Igreja deve estar separada do Estado.

Conforme escreveu São Pio X:
“A sociedade não será edificada se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: omnia instaurare in Christo - tudo restaurar em Cristo.”
 — PIO X, Notre Charge Apostolique, 1910
São possíveis duas escolhas: servir a Deus e carregar o estandarte da Cruz pela restauração de todas as coisas em Cristo e por Seu Reino; ou servir aos interesses materialistas, sejam estes liberais ou socialistas: é atender o eco do non serviam luciferino. É lutar pela Cidade Terrena, dos homens, ou pela Cidade Celeste, de Deus.

Os católicos devemos vigorosamente combater pela reta ordenação do homem a Deus, da criatura ao Criador. A sociedade civil, o Estado, também é criatura criada por Deus, afinal, Ele criou o homem como animal social e que necessita da sociedade para sua perfeita provisão. Ao criar o homem, também foi criada por Deus a sociedade. E neste reto ordenar, no instaurar de todas as coisas em Cristo, o Estado e Igreja devem estar unidos - Estado Católico - sem se confundirem e serem distintos sem separação, com o Estado ordenado e submisso à Igreja e às suas leis, prostrado diante de Cristo Rei, pois “a liberdade consiste em que, com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna.” (cf. LEÃO XIII, Libertas Praestantissimum, 1888)

Profeticamente escreveu São Pio X em 1906, tratando sobre a separação da Igreja e Estado na França:
“Que seja preciso separar o Estado da Igreja, é esta uma tese absolutamente falsa, um erro perniciosíssimo. Com efeito, baseada nesse princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso ela é, em primeiro lugar, em alto grau injuriosa para com Deus; porquanto o Criador do homem também é o Fundador das sociedades humanas, e conserva-as na existência como nos sustenta nelas. Devemos-lhe, pois, não somente um culto privado, mas um culto público e social para honrá-lo.
Além disto, essa tese é a negação claríssima da ordem sobrenatural. De feito, ela limita a ação do Estado à simples demanda da prosperidade pública durante esta vida, a qual não passa da razão próxima das sociedades políticas; e, como que lhe sendo estranha, de maneira alguma se ocupa da razão última delas, que é a beatitude eterna proposta ao homem quando esta vida, tão curta, houver findado. E, no entanto, achando-se a ordem presente das coisas, que se desenrola no tempo, subordinada à conquista desse bem supremo e absoluto, não somente o poder civil não deve obstar a essa conquista, mas deve ainda ajudar-nos nela.
Essa tese subverte igualmente a ordem muito sabiamente estabelecida por Deus no mundo, ordem que exige uma harmoniosa concórdia entre as duas sociedades. Essa duas sociedades, a sociedade religiosa e a sociedade civil, têm, com efeito, os mesmos súditos, embora cada uma delas exerça na sua esfera própria a sua autoridade sobre eles. Daí resulta forçosamente que haverá muitas matérias que elas ambas deverão conhecer, como sendo da alçada de ambas. Ora, venha a desaparecer o acordo entre o Estado e a Igreja, e dessas matérias comuns pulularão facilmente os germes de contendas, que se tornarão agudíssimos dos dois lados; a noção da verdade será, com isso, perturbada, e as almas ficarão cheias de grande ansiedade. 
Finalmente, essa tese inflige graves danos à própria sociedade civil, pois esta não pode prosperar nem durar muito tempo quando não se dá nela o seu lugar à religião, regra suprema e soberana senhora quando se trata dos direitos do homem e dos seus deveres.
— PIO X, Vehementer Nos, 1906
A cidade de Deus ou a cidade dos homens, a Jerusalém Celeste ou o Inferno, Cristo ou Satanás - o primeiro liberal -, não se pode servir a dois senhores.
“Se a natureza e a razão impõem a cada um a obrigação de honrar a Deus com um culto santo e sagrado, porque nós dependemos do poder dele e porque, saídos dele, a Ele devemos tornar, à mesma lei adstringem a sociedade civil. Realmente, unidos pelos laços de uma sociedade comum, os homens não dependem menos de Deus do que tomados isoladamente; tanto, pelo menos, quanto o indivíduo, deve a sociedade dar graças a Deus, de quem recebe a existência, a conservação e a multidão incontável dos seus bens. É por isso que, do mesmo modo que a ninguém é lícito descurar seus deveres para com Deus, e que o maior de todos os deveres é abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas, assim também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo seu beneplácito. Honrando a Divindade, devem elas seguir estritamente as regras e o modo segundo os quais o próprio Deus declarou querer ser honrado. [...] Quanto à Igreja, que o próprio Deus estabeleceu, excluí-la da vida pública, das leis, da educação da juventude, da sociedade doméstica, é um grande e pernicioso erro. Uma sociedade sem religião não pode ser bem regulada; e, mais talvez do que fora mister, já se vê o que vale em si e em suas conseqüências essa pretensa moral civil.”
— LEÃO XIII, Immortale Dei, 1885 
Nem laicismo, nem “sã” laicidade: Ele, Cristo, é Rei e deve reinar. E esse Reinado deve começar em nossas almas ao viver na graça, entronizando o Cristo Rei nas famílias e trabalhando pela conversão das sociedades, para que Ele seja verdadeiramente reconhecido e elas sejam submetidas a Ele. E todos devemos fazê-lo.

“Os fiéis cristãos, membros de um organismo vivo, não podem ficar encerrados em si mesmos e acreditar que basta ter pensado e providenciado sobre as próprias necessidades espirituais para ter cumprido todo o seu dever. Em vez disso, cada um por sua própria parte deve contribuir para o incremento e para a difusão do Reino de Deus na terra.”
— JOÃO XXIII, Princeps Pastorum, 1959
Cristo é Rei não somente dos indivíduos, mas também das sociedades, das nações e dos Estados. É o Rei cujo Reinado é supremo no céu e também deve ser sobre a terra, porque o Pai deu-Lhe toda a autoridade (cf. Mt XXVIII, 18) e o constituiu herdeiro de todas as coisas (cf. Hb I, 1). É o Rei que tem como trono a Santa Cruz, que devemos abraçar.
“O Reino de Cristo, Senhor nosso, é não só espiritual, mas também temporal; e o pensava assim pelas Escrituras e Santos Padres, como, também, pela razão da união apostólica; e porque seria grande absurdo o julgar que Cristo, Senhor nosso, não teve tanto domínio quanto teve Adão.” 
 — Padre Antônio Vieira
Muitos lutaram ardorosamente pelo Reinado de Nosso Senhor durante a história, mas faço especial menção aos bravos cristeros do México, que lutaram a Guerra Cristera -  também conhecida como Cristiada - ao fim da década de 1920, justamente chamada assim pelos cristeros carregarem como bandeira e estandarte a Cruz de Nosso Senhor e a luta pelo seu Reinado Social ante os liberais e maçons que governavam o México e desejavam ser maiores que o Senhor dos Exércitos e Sua Igreja. Tomemo-los como exemplos para a nossa luta por Nosso Senhor e, como eles, lutemos o bom combate, na paz ou na guerra, pela honra e glória de Cristo Rei!

VIVA CRISTO REI!

sexta-feira, 15 de março de 2019

Crônica: O sofrimento e a Cruz


Não é natural ao homem que abrace o sofrimento e as dores, sua tendência é a fuga para o conforto, para o bem-estar e para o prazer – mesmo o prazer desregrado ou que atente contra sua própria natureza. Também não é natural que o homem se alegre com o sofrimento, pelo contrário, tende a amuar-se ou enraivecer-se com aquilo que vê como imposto por algo ou alguém. A Santa Paixão de Nosso Senhor, porém, dá novos sentidos e significados para as dores, as derrotas e o sofrimento.

Por más línguas durante a história, as cruzes tornaram-se todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, mas isto não pode continuar. Celebramos no dia 14 de Setembro a Festa de Exaltação da Santa Cruz, cujo o introito nos apresenta: Nos autem gloriari oportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi: in quo est salus, vita, et resurrectio nostra; per Quem salvati, et liberati sumus - Nós porém devemo-nos gloriar na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Quem nos vem a salvação, a vida e a ressurreição; por Quem fomos salvos e livres -, portanto, exaltemos a Cruz e sejamos submissos, pois o jugo d'Aquele que abraçou-lhe é suave e seu fardo é leve, porque Ele é manso e humilde de coração.

A alegria cristã tem um caráter que é sobrenatural. Seu fundamento, rocha e pedra angular não é o homem, mas Deus. “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, irá salvá-la.” (Lc IX, 23-24), estas são as palavras de Nosso Senhor. Palavras que parecem duras àquele que teme a Cruz, mas que em verdade são palavras de amor e de alegria. Alegria sobrenatural.

Quando o Senhor diz “renegue-se a si mesmo”, fala-nos da mortificação. Aquele que não quiser renegar-se e renunciar a si mesmo jamais poderá ser santo, pois a mortificação é um elemento essencial da vida cristã. A modernidade tende a vê-la com maus olhos em sua busca insaciável pelo prazer carnal e material justamente porque a mortificação se opõe diametralmente à vida desregrada, que não quer renúncias, mas posses. Mortificar é renunciar, por amor a Deus; é regenerar-se em Cristo. Indo além, é seguir também o próprio Deus encarnado nos exemplos que nos deu durante sua vida.

A mortificação, em suas diversas formas, é uma necessidade para o homem cristão, não somente para reparar as ofensas a Deus, mas para purificar-se, alcançar as virtudes, santificar-se, tendo como fim dar glória a Deus. É isto que exorta São Paulo ao dizer “afeiçoar-vos às coisas lá de cima, e não às da terra” (cf. Cl III). Mortificar-se é estar unido à Paixão de Nosso Senhor; é pôr em ordem e harmonia os afetos e paixões para acabar com o egoísmo e apegos mundanos, e assim retificar o amor para amar o Amor, para tudo fazer em nome d'Ele. É vencer-se a si mesmo com ânimo nas pequenas coisas para também saber fazê-lo nas grandes, sempre entregue à vontade divina. É, de certa maneira, tomar cruzes para viver pela Cruz, despindo-se do homem velho e revestindo-se do homem novo.

Aceitemos com alegria as dificuldades, tendo consciência de que tal como a Mãe de Deus acompanhou Jesus durante toda a sua vida, também está a acompanhar-nos nas nossas. Como os sertanejos em suas durezas, apelemos com simplicidade e filial confiança: valei-me Nossa Senhora! Rogando a Mãe Santíssima, sejamos alegres na Cruz, para abraçar-lhe como Nosso Senhor a abraçou, agarrando-se nela esperançosos e com a máxima força possível, para dela nunca soltar-se. 

A alegria da ressurreição só é possível depois da dolorosa Paixão: é fruto da dor da Cruz. São Josemaría Escrivá escreveu: “A Cruz não é a pena, nem o desgosto, nem a amargura... É o madeiro santo onde triunfa Jesus Cristo..., e onde triunfamos nós, quando recebemos com alegria e generosamente o que Ele nos envia.” (Forja, 788). Aquele que busca estar na Glória com Deus deve amar a Cruz, pois ela não só é compatível à alegria da Ressurreição, mas a precede pela Paixão.

Santo Madeiro que abraçou-se ao Cristo e por Ele foi abraçado: de símbolo de castigo foi convertido em sinal de vitória; de bandeira da morte tornou-se a via da salvação. Nulla dies sine Cruce, in laetitia! - Nenhum dia sem Cruz, com alegria!

Abraçados à Santa Cruz, gloriemo-nos n'Ela. Stat Crux dum volvitur orbis - A Cruz permanece intacta enquanto o mundo gira. Salve, Cruz vitoriosa e bendita!

terça-feira, 12 de março de 2019

Artigo: Eis o Cordeiro!

 Agnus Dei (c. 1635-1640, óleo sobre tela), de Francisco de Zurbarán
"Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca."
— Isaías LIII, 7
O profeta Santo Isaías descreveu com perfeição e exatidão, inspirado pelo Santo Espírito, aquele que viria a ser o ápice da demonstração de amor de Deus pelo homem: a morte do próprio Deus, na Cruz, para que o homem pudesse viver plenamente. O supremo ato de amor que consumou a derrota da morte em definitivo. O Amor morreu de amor. Anunciou São João Batista: Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi – Eis o Cordeiro de Deus, eis O que tira o pecado do mundo.

É a grande provação que o Homem-Deus enfrentou pelos castigos dos homens e que o homem deve enfrentar para merecer o Homem-Deus, inabalavelmente buscando-O com tudo o que tem, com toda a força e inteireza de seu ser. Porque ainda hoje, "nós pregamos o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos" (I Cor I, 23). Loucura que mais de dois mil anos depois continua para os pagãos da modernidade, que com suas contradições rejeitam a Cruz e querem estar na glória; que rejeitando a morte pretendem a salvação.

Pagãos que, como disse Dom Antônio de Castro Mayer, pretendem dulcificar o Cristianismo retirando justamente Aquele que é doce e suave. Retirando do centro Aquele que é e deve sempre ser o Centro.

Nos Evangelhos, Nosso Senhor nos ensina que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Pois como querem então a Vida trilhando por outro caminho, por outra via, pregando falsas verdades? Em sua dolorosa Paixão e morte na Cruz, Nosso Senhor nos dá o exemplo de como trilhar este caminho verdadeiro para a Vida: é a porta estreita pela qual devemos fazer todo o esforço possível, pela qual devemos renunciar à mundanidade, aos pecados e iniquidades, e aceitar integralmente a Cristandade. O Cordeiro sacrificou-Se para o santo banquete, mas não podem participar deste banquete aqueles que não desejam o sacrifício, abnegação e santificação para poder recebê-lO.

Faz-se necessário percorrer a Via Crucis tomando cada um a sua cruz, renunciando a si mesmo e seguindo-O no Caminho da Cruz que Ele mesmo percorreu enquanto carregava o peso dos nossos pecados. É a via necessária para tornar-se um alter Christus, um outro Cristo, para que não mais vivamos, mas Cristo viva em nós. Sem cruz? Sem renúncia? Sem amor. Sem Cristo.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Artigo: A megalomania do pó


Nada mais distante da verdadeira grandeza que a megalomania, mania de grandeza típica de Satanás – que pensou ser maior que Deus – e da modernidade, parideira do iluminismo, do materialismo, do liberalismo e do comunismo e de todas as demais desgraças sucedidas até o presente. Diz um velho ditado que a maçã não cai longe da árvore.

Que é o homem moderno com seu materialismo senão uma casca enfeitada com o material mais precioso, mas fraca e vazia. Faz-se igual à figueira relatada por São Marcos em seu Evangelho (cf. Mc XI, 13-14): tão bonita e majestosa com suas folhas, mas sem figos. Árvore de aparência tão enganosa como o homem moderno, criado para ser um megalômano e ostentar uma grandeza que não possui.

É a sociedade onde os hospícios tratam os sãos e estimulam os loucos; criam a insanidade ao invés de saná-la. O mundo moderno é a definição do bizarro, verdadeira peça de teatro macabra e de péssimo gosto.

Na grotesca e monstruosa sociedade em que vivemos, a Quarta-feira de Cinzas vem para anunciar ao homem moderno que do pó ele veio e ao pó voltará. De fato, é uma lembrança desagradável para um ser tão depravado e animalesco quanto o homem moderno, que cede às mais baixas paixões e instintos desordenados; que soberbamente põe-se nas alturas mais elevadas.

Enquanto a megalomania eleva o homem à grandeza que não possui, a simplicidade do pó o rebaixa ao que ele realmente é. É o contraste da Cruz, onde o símbolo da morte tornou-se a via da salvação.

Nesta Quarta-feira de Cinzas, dia santo em que iniciamos a Quaresma, que grite a consciência daquilo que realmente somos, para que a nossa escolha não seja o engrandecer da modernidade, mas o diminuir da Cristandade.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Apresentação

Este espaço nasceu da minha vontade e das pacientes ajudas do meu amigo e xará J.C. Bulla, do blogue Advocatus Fidei – que aliás já fica recomendado para vocês –, que me ajudou com as ferramentas blogueirísticas; e do Prof. Sérgio Pachá, que me ajudou com as correções para o latim.

Tratarei aqui dos mais diversos assuntos. É um blogue de aleatoriedades: história, poesia, filosofia, críticas, aquilo que der na telha.

O nome deste blogue, "Adversus Modernitatem", é latim para "Contra a Modernidade". Modernidade aqui deve ser entendida não no sentido de avanço e progressão tecnológica, mas a modernidade amputadamente ideológica, da mentira, da falsidade e do iluminismo; do liberalismo da caótica Revolução Francesa e do marxismo da infame Revolução Russa; a modernidade da Revolução Marcusiana que bate às nossas portas; a modernidade da loucura e do hedonismo; do laicismo e do secularismo; a modernidade do anti-Igreja, do anti-Cristo, do anti-Deus.

Professamos integralmente a Religião Católica Apostólica Romana, Única e Verdadeira Religião, e cremos nas verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Sua única e Santa Igreja. Tendo a Santa Cruz como estandarte e a proteção da Santíssima Mãe de Deus, avancemos pela difusão da Verdade, pela extensão do Reinado de Nosso Senhor e pela busca da santidade.

Abraçados à Santa Cruz, gloriemo-nos nEla.

Stat Crux dum volvitur orbis.