“Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da herança dos santos na luz; que nos arrancou do poder das trevas, e nos transferiu para o Reino do Filho do seu amor, em Quem temos, pelo seu sangue, a redenção e o perdão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, porque é Nele que tudo foi criado nos Céus e na Terra, – o mundo visível e o invisível, os Tronos e as Dominações, os Principados e as Potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é anterior a tudo, e tudo Nele subsiste. É Ele ainda que é a cabeça do corpo da Igreja; o princípio, e o primogênito de entre os mortos, a fim de em tudo ter a primazia, porque aprouve a Deus fazer Nele residir toda a plenitude; e por Ele, que restabeleceu a paz no sangue de sua Cruz, reconciliar tudo o que existe, seja na Terra ou nos Céus, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.”
— São Paulo aos Colossenses I, 12-20
Nosso Senhor Jesus Cristo sempre fora aclamado como Rei pela Cristandade, porque assim fora constituído pelo Pai. É o Rei sob cuja a majestade devem ser submetidos todos indivíduos, famílias, cidades, povos e nações. É o Rei único e supremo no céu e sobre a terra, como solenemente proclamou e demonstrou o Papa Pio XI durante o Advento de 1925. A instituição da Festa de Cristo Rei pelo mesmo Papa é a proclamação solene da realeza universal de Cristo, de seu Reinado Social contra a dita outra via da “sã” laicidade e do laicismo, erros largamente difundidos em nosso tempo, mesmo por aqueles que se dizem católicos.
“Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.”
— PIO XI, Quas Primas, 1925
A tal “sã” laicidade é o primeiro passo à cidade dos homens: a negação da realeza de Cristo sobre os homens: é a vida como se Deus não existisse, um indiferentismo maldito ao Rei que conduz à apostasia massiva, a sociedade à desgraça, porque, indiferentes, esquecem que não há outra via para a Jerusalém Celeste, somente Cristo Rei; enquanto o laicismo é o segundo passo: a pura aversão dos homens apóstatas de uma sociedade já desgraçada ao Rei, é a concretização da cidade dos homens. Ambos os passos são parte do projeto de Satanás, que, com seu infame non serviam, foi o primeiro liberal ao lançar-se contra o Rei dos reis. Passos para o inferno.
“Mas há um grande número de homens que, a exemplo de Lúcifer, — de quem são estas palavras criminosas: Não obedecerei, — entendem pelo nome de liberdade o que não é senão pura e absurda licença. Tais são aqueles que pertencem à escola tão espalhada e tão poderosa desses homens que foram tirar o seu nome à palavra liberdade, querendo ser chamados Liberais.”
— LEÃO XIII, Libertas Praestantissimum, 1888
O reinado de Nosso Senhor é primeiramente espiritual, e com Ele a reinar sobre a alma de cada homem, deve reinar também naquilo que é temporal e social, para que tudo favoreça e seja retamente ordenado à salvação das almas. É nisto que consiste a verdadeira liberdade do homem: viver segundo as leis, natural e divina, e segundo a reta razão. Viver segundo a verdade, que é libertadora da obscura escravidão do pecado, do erro e do poder das trevas.
“Numa sociedade de homens, portanto, a liberdade digna deste nome não consiste em fazer tudo o que nos apraz: isso seria uma confusão extrema no Estado, uma perturbação que conduziria à opressão. A liberdade consiste em que, com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna. E para aqueles que governam, a liberdade não é o poder de mandarem ao acaso e segundo seu bel-prazer: isso seria uma desordem não menos grave e extremamente perigosa para o Estado; mas a força das leis humanas consiste em que elas sejam olhadas como uma derivação da lei eterna e que não há nenhuma das suas prescrições que não seja contida nela como no princípio de todo direito.”
— LEÃO XIII, Libertas Praestantissimum, 1888
Seguindo estas palavras tão verdadeiras do Papa Leão XIII, o grande estadista católico português António de Oliveira Salazar resumiu de maneira clara, simples e direta como deve se dar a relação entre Estado e Igreja: “A Igreja quer salvar todas as almas e pretende que o Estado não a atrapalhe nessa missão.”. Como já escrevemos anteriormente, no instaurar de todas as coisas em Cristo, o Estado e Igreja devem estar unidos - Estado Católico - sem se confundirem e serem distintos sem separação, com o Estado ordenado e submisso à Igreja e às suas leis, prostrado diante de Cristo Rei. A negação da realeza social de Cristo é a edificação da cidade dos homens, e não se pode querer estar na cidade dos homens e na cidade de Deus ao mesmo tempo. Não podemos servir a dois senhores.
“Quanto à Igreja, que o próprio Deus estabeleceu, excluí-la da vida pública, das leis, da educação da juventude, da sociedade doméstica, é um grande e pernicioso erro. Uma sociedade sem religião não pode ser bem regulada; e, mais talvez do que fora mister, já se vê o que vale em si e em suas conseqüências essa pretensa moral civil.”
— LEÃO XIII, Immortale Dei, 1885
Os judeus reconheceram a Realeza de Nosso Senhor para condená-Lo (cf. Jo XIX, 12) e os pagãos para Dele zombar (cf. Jo XIX, 3). O omisso Pôncio Pilatos ordenou que se escrevesse na Santa Cruz “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”, o que é correto, mas algo incompleto: Cristo é Rei não somente dos judeus, mas de todos os povos, uma vez que toda a terra está sob sua autoridade; uma vez que adquiriu para si todo o gênero humano através do derramamento de seu Preciosíssimo Sangue na Santa Cruz.
“Este testemunho universal e solene de honra e de piedade é plenamente devido a Jesus Cristo, precisamente porque Rei e Senhor de todas as coisas. Com efeito, o seu império não se estende somente às nações católicas e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infringiram os vínculos da caridade), mas abraça também todos aqueles que não têm a fé cristã, porque toda a humanidade está realmente sob o poder de Jesus Cristo. Com efeito, o Filho unigênito de Deus Pai tem em comum com Ele a mesma natureza, o “resplendor de Sua glória e expressão do Seu ser” (Hb I, 3), tem necessariamente tudo em comum com o Pai e, portanto, o pleno poder sobre todas as coisas. Esse é o motivo pelo qual o Filho de Deus, pela boca do Profeta, pôde afirmar: “Fui constituído Rei sobre Sião, seu monte santo. O Senhor me disse: Tu és meu Filho; Eu hoje Te gerei. Pede-me e dar-te-ei as nações em herança e para teu domínio os confins da terra” (Sl II, 6-8). Com essas palavras ele declara ter recebido de Deus o poder, não somente sobre toda a Igreja, prefigurada em Sião, mas também sobre todo o resto da terra, até onde se estendem os seus confins. O fundamento desse poder universal é claramente expresso naquelas palavras: “Tu és meu Filho”. Pelo fato de ser o Filho do Rei de todas as coisas, é também herdeiro de Seu poder universal. Por isso o salmista continua com as palavras: “Dar-te-ei as nações em herança”. Semelhantes a esta são as palavras do Apóstolo Paulo: “Constituiu-O herdeiro de todas as coisas” (Hb I, 2).
Deve-se ter presente, sobretudo o que Jesus Cristo, não por meio dos seus Apóstolos e Profetas, mas com as suas próprias palavras afirmou do seu poder. Ao governador romano que Lhe perguntava: “És, portanto, rei?”, Ele respondeu sem hesitação "Dizes bem: eu sou Rei!" (Jo XVIII, 37). A vastidão do seu poder e a amplidão sem limite de seu Reino são claramente confirmadas pelas palavras dirigidas aos Apóstolos: “Foi me dado todo poder nos céus e na terra” (Mt XXVIII, 18). Se a Cristo foi concedido todo o poder, disso deriva necessariamente que o seu domínio deve ser soberano, absoluto, não submetido a ninguém, de modo que não pode existir outro nem igual nem semelhante. E como esse poder Lhe foi dado, quer no céu quer na terra, devem estar submetidos a Ele o céu e a terra. Com efeito, Ele exerceu esse seu direito próprio e individual quando mandou aos Apóstolos pregar sua doutrina, reunir, por meio do batismo, todos os homens no único corpo da Igreja, e impor leis, as quais ninguém se pode subtrair sem pôr em perigo a própria salvação eterna.
E não é tudo. Cristo não tem poder de mandar somente por direito de nascimento, sendo o Filho unigênito de Deus, mas também por direito adquirido. Com efeito, Ele nos libertou “do poder das trevas” (Cl I, 13) e “deu a Si mesmo como resgate para todos” (I Tm II, 6). Por isso, para Ele não somente os católicos e quantos receberam o batismo, mas também cada um e todos os homens tornaram-se “um povo que Ele adquiriu” (I Pd II, 9). A esse propósito Santo Agostinho observa justamente: “Quereis saber o que Ele adquiriu: Prestai atenção naquilo que deu e entendereis o que comprou. O sangue de Cristo: eis o preço. E o que pode valer tanto? O quê a não ser o mundo inteiro? Para tudo deu tudo”.”
— LEÃO XIII, Annum Sacrum, 1899
Durante os Santos Mistérios, os homens ajoelham-se todos, indistintamente, perante o Cordeiro que foi imolado no altar de Deus: ecce Agnus Dei! – eis o Cordeiro de Deus!; perante o Deus que se fez Homem a ser crucificado. Ecce Homo! – eis o Homem!
A Festa de Cristo Rei proclama com todas as palavras a antecipação no tempo da realeza eterna exercida por Nosso Senhor na glória celeste. O Rei cujo o Reino não terá fim – cujus Regni non erit finis – e que dominará sobre toda a terra, onde todos devem adorá-Lo e servi-Lo (cf. Sl LXXI, 8). E somos sempre convidados pelas palavras de Nosso Senhor ao labor pela expansão de seu Reino: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.”, convite sempre reforçado pela Santa Igreja.
“Amados irmãos e filhos nossos: o olhar que lançamos convosco sobre os diversos problemas da vida social contemporânea, desde as primeiras luzes do ensinamento do papa Leão XIII, levou-nos a formular um conjunto de observações que formam um programa. Convidamo-vos a que as pondereis, as mediteis bem e vos animeis a cooperar, todos e cada um de vós, na realização do reino de Cristo sobre a terra: “Reino de verdade e de vida; reino de santidade e de graça; reino de justiça, de amor e de paz”; reino que promete o gozo dos bens celestiais, para que fomos criados e que ansiosamente desejamos.
Trata-se da doutrina da Igreja Católica e Apostólica, mãe e mestra de todas as gentes, cuja luz ilumina e abrasa; cuja voz, ao ensinar cheia de sabedoria celestial, pertence a todos os tempos; cuja virtude oferece sempre remédios eficazes, suscetíveis de trazerem solução para as crescentes necessidades dos homens, para as angústias e aflições desta vida.”
— JOÃO XXIII, Mater et Magistra, 1961
Como no Tempo da Paixão anuncia o Hino Vexilla Regis: “Avançam os estandartes do Rei, fulge o mistério da Cruz, o criador da carne, pela carne, é suspenso no madeiro. [...] Cumpriu-se o canto de Davi, a profecia fiel que anunciou às nações: Deus fez da cruz o seu trono.”. Deus reinou do madeiro da Santa Cruz ao morrer, por amor, para nos salvar, para adquirir nossa liberdade e nosso domínio soberano. Gloriemo-nos, como São Paulo, na Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl VI, 14).
Que “as nações divididas pela ferida do pecado se agreguem sob o seu império santíssimo”, para a realização “do reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, amor e paz” (Colecta e Prefácio de Cristo Rei, Rito Romano Tradicional). Abracemos sem hesitação o Rei da Cruz como fez a Beatíssima Virgem Dolorosa, e entoemos junto da Igreja o Hino de Vésperas da Festa de Cristo Rei:
“Nós vos proclamamos, Senhor, o príncipe que domina os séculos, o Rei das nações e dos povos, o Mestre e Guia das almas e dos corações.
A turba ímpia clama: não queremos que Cristo reine. Nós te proclamamos o Senhor supremo de todas as coisas.
Ó Cristo, príncipe da Paz, sujeita os corações rebeldes e reúne-os por teu amor ao santo rebanho que governas.
Rendam-te, pois, os governantes dos povos a vassalagem a que tens direito; venerem-te os juízes e os magistrados, e a arte e as leis sejam a expressão de tua realeza.
Gloriem-se as coroas brilhantes dos monarcas de se curvarem diante de ti e reduze à obediência do teu cetro brando a nossa pátria e os nossos lares.”